Lembro-me bem. Era criança e ouvia na TV uma propaganda do antigo Ministério da
Educação e Cultura sobre a leitura, que terminava dizendo: “a leitura traz alegrias, emoções e bons
amigos”. Não sei a quantos essa mensagem tocou; certamente, não a mim. Já possuía alguma
familiaridade com os livros àquela época, mas tinha que ser algo muito lúdico e, de preferência,
cheio de figuras. Lia, como tantas crianças, contos importados de Pérrault, de Andersen, de Grimme, é claro, os maravilhosos gibis. Sem compromisso...
Na 4ª série a professora nos leu, em sala, em capítulos diários, tal qual uma novela “O Meu
Pé de Laranja Lima”. Foi uma grata experiência, principalmente, porque, naqueles momentos não
tínhamos nada para copiar do quadro de giz, nem lição a fazer e podíamos levitar em pensamento.
Cheguei ao antigo ginasial. 5ª série...O primeiro livro que tive que ler mandado pela escola foi
“Coração de Onça” de Ofélia e Narbal Fontes. Um livro muito agradável, mas que saiu “a fórceps”. E
assim foi, durante minha vida escolar, lendo o que me mandavam a fim de não afundar nas provas.
Quantos de nós somos assim?
Quando me formei, não li mais nada...
Um certo dia, me vi servindo com um companheiro, contemporâneo dos bancos escolares,
que sabia de tudo. Sobre tudo opinava, argumentava com precisão, tinha conversa para qualquer
freguês. Eu ficava bestificado ao vê-lo desfilar conhecimentos, sem nenhuma empáfia, naturalmente.
De onde será que viria tanto conhecimento? Como alguém tão jovem podia citar Camões com tanta
naturalidade? A resposta era óbvia, já que conhecimento não brota do nada, mas sim, do estudo, da
leitura.
Isso despertou em mim uma saudável inveja: “também posso ser assim”, pensei. E decidi
começar minha hercúlea tarefa. Tomei, então, coragem e peguei um livro que encontrei na estante
de casa: “História Econômica e Administrativa do Brasil Colônia”, com certeza, um começo que não
recomendo a ninguém. Foram duros meses de combate entre nós... até que um dia, venci.
E aprendi, por certo, muita coisa sobre o hábito de ler. Descobri, por exemplo, que para
gostar de ler é preciso começar pelo mais simples, pelo mais fácil, mais agradável. Essa é, talvez, a
lição número um.
Bem, mas voltemos à História Econômica e Administrativa do Brasil. Chegava do trabalho,
jantava e punha-me a ler. Após uma semana percebi que não estava compreendendo quase nada.
Foi, então, que decidi mudar de tática. Passei a ler ao lado de um dicionário, de um atlas, de minha
enciclopédia Delta Larousse. “Agora vai”, pensei eu. E começou a ir. Passei a entender tudo
detalhadamente e a leitura passou a fazer sentido. Pesquisava tudo que não conhecia. Foi um rico
aprendizado sobre as Ordenações Manuelinas, Felipinas e Afonsinas. Não conseguia vencer mais
do que duas ou três páginas por dia. Era o preço da minha ignorância.
Foi aí que cheguei à lição número dois: para gostar de ler é preciso entender o que se lê. E
quanto menos conhecimento e vocabulário temos, mais difícil se torna começar.
Mas percebi que, com o tempo, a velocidade de leitura aumentava. As duas ou três páginas
diárias de suplício passaram a ser cinco, dez, vinte de uma tarefa menos odiosa. Já fazia sentido.
Tornei-me íntimo dos temas desconhecidos e eles sempre reapareciam ao longo do texto. E assim
ocorre com todas as áreas do conhecimento. Retirei, daí, mais uma lição: quando estamos no
contexto – contextualizados, é a palavra “politicamente correta” – da leitura, íntimos do tema lido, de
seus meandros e personagens, de suas épocas e lugares, fica muito fácil gostar de ler. Senão,
vejamos:
“Muitos nosocômios já realizam à colpocitologia oncótica para a semiologia da neoplasia
intraepitalial cervical.”
Alguém entendeu alguma coisa? Provavelmente, não. Mas um ginecologista entenderia mais
ou menos o seguinte:
“Muitos hospitais já realizam o exame que faz o diagnóstico do câncer de colo de útero.”
Agora ficou melhor? Qualquer que seja a área do conhecimento sobre a qual nos
debrucemos, por mais complexa que possa parecer, poderemos nos tornar íntimos dela se
conhecermos seu linguajar peculiar. Logo, deve-se buscar ler aquilo que nos faça sentido, que nos
desperte curiosidade, de que nos sintamos parte. Chegamos assim, à lição número três: para gostar
de ler é preciso que estejamos inseridos no contexto da leitura.
PARA FAZER LER
Ao longo da vida, teremos a oportunidade de influenciar as pessoas com quem convivemos,
seja na vida pessoal, seja na vida profissional. Acredito que uma contribuição bastante positiva seria
induzir as pessoas – amigos, familiares, subordinados – ao ato de ler. Para tanto, é preciso que o
condutor do processo sirva de exemplo (ninguém transmite realmente aquilo em que não acredita),
utilize alguns processos práticos (método) e tome alguns cuidados.
Entre os cuidados, acredito ser o principal, agir sobre a motivação, evitando explicitar a
obrigatoriedade de ler. A obrigação explícita desperta um componente natural de resistência ao
trabalho de fazer leitores. Ademais, busque utilizar as idéias lançadas ao longo do presente artigo.
Quanto aos métodos, é fundamental que o candidato a leitor tenha acesso a obras: revistas
(de preferência bastante ilustradas), jornais, livros – além do acesso à mídia eletrônica – podem ser
oferecidos nas salas de recreação das OM. A assinatura da Bibliex ou de outra fonte pode ser feita
e, as obras, colocadas ao alcance da mão. Algumas pesquisas (estudos) podem ser encomendadas
a grupos, tendo-se o cuidado de respeitar o nível intelectual do homem. Concursos de resenhas,
debates periódicos sobre assuntos diversos, principalmente os que palpitam no dia-a-dia dos futuros
leitores, seleção de tópicos para discussão.
Alguns livros podem ser lidos e discutidos em grupo utilizando-se o seguinte método: divida a
turma em pequenos grupos e dê a cada grupo uma parte; após um tempo de leitura, os grupos
apresentarão o que leram na ordem dos capítulos; em seguida, discussão e debate. Sua criatividade
poderá produzir outros processos.
É conveniente ressaltar que, quando se busca fazer ler, os frutos que serão colhidos,
normalmente, não serão muito numerosos, mas algo de bom há de ficar. Que isso lhe sirva de
desafio.
CONCLUINDO
O conhecimento, a informação e a cultura são para o oficial, mais do que adornos ou
complementos desejáveis: diante da complexidade do Exército, da multiplicidade de missões e da
volatilidade dos cenários, são uma absoluta necessidade. Sem tais ferramentas, seu trabalho jamais
sairá da mediocridade.
Bem, fim da linha, início do trabalho. Espero ter, com essa modesta colaboração despertado
você, meu caro leitor, para a importância do assunto. Meu sincero desejo é que, um dia, você possa
sentir o peso das palavras de Castro Alves (“O Livro e a América”) e ovacionar o livro com a mesma
emoção:
“Oh! Bendito o que semeia
Livros...livros à mão cheia...
E faz o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar”
Última lição: ler é um ato de amor. Apaixone-se e seja feliz.